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CAPTULO 33
FIGURAS DE LINGUAGEM:  OS TROPOS
. e
 
 

CLASSIFICAO
DAS FIGURAS DE LINGUAGEM 
Figuras de linguagem so certas maneiras de dizer que expressaM o pensamento ou o sentimento com energia e colorido, a servio dw intenes estticas de quem as 
usa. 
Trata-se de recursos naturais da linguagem, que os escritores apro 
veitam para comunicar ao estilo vivacidade e beleza. 
H figuras: 
- De palavras (ou tropos). 
- De construo. 
- De pensamento. 
Mencionando-se to-somente as mais importantes, podem-se ela dispor no seguinte quadro geral: 
metfora (e suas variedades) mnetontmia (e suas variedades) 
Por omisso: 
elipse 
zeugma 
assndeto 
reticncia 
FIGURAS DE PALAVRAS 
FIGURAS DE CONSTRUO 
1) 
500 
2) Por excesso: 
pleonasmo 
polissndeto 
3) Por transposio: 
hiplage 
hiprbato 
snquise 
4) Por discordncia: 
anacoluto (j estudado, p. 489) 
silepse 
5) Por repetio 
anfora 
epstrofe 
simploce 
concatena ao 
conversdo 
FIGURAS DE PENSAMENTO 
anttese 
paradoxo 
clniax 
preteri to 
antfrase 
eufemismo 
litote 
alus2o 
FIGURAS DE PALAVRAS OU TROPOS 
METFORA 
1) Consiste na transferncia de um termo para uma esfera de significao que no  a sua, em virtude de uma comparao implcita. 
Quando dizemos, por exemplo, 
501 
perdi a chave do apartamento 
doente do corao 
pessoa baixa 
mancha negra, 
as palavras sublinhadas se empregam na sua significao reta, ou denotativa. 
No  raro, porm, construrem-se frases como as seguintes: 
Atinamos, afinal, com a chave do problema, 
Penetramos no corao da floresta, 
Sempre foi pessoa de sentimentos baixos, 
Confessou ao sacerdote seu negro pecado, 
em que as mesmas palavras aparecem transfiguradas e enriquecidas 
de novos valores expressivos. 
Estes novos sentidos esto, porm, de alguma forma, relacionados 
com os primitivos, como  fcil perceber. 
Assenta a metfora numa relao de similaridade, encontrando o 
seu fundamento na mais natural das leis psicolgicas: a associao de 
idias. 
Assim, ela transporta o nome de um objeto a outro, graas a um 
carter qualquer comum a ambos: a folha da rvore d o seu nome 
 folha de papel, em razo da pequena espessura de uma e outra. 
Do mesmo modo: ofio de um discurso; onda de imigrantes; corao 
empedernido; cabea de revoluo; sorriso amarelo. 
Nem sempre  fcil determinar-lhe o ponto de partida; muitas vezes, o processo de desenvolvimento da metfora compreende dois momentos: um, em que ela  ainda sensvel, 
por isso que o nome, ao designar o segundo objeto, desperta a imagem do primeiro; o outro, quando, por esvaecimento da primeira imagem, o nome s designa o segundo 
objeto e s a este se torna adequado. 
Por isso, Konrad contrape a metfora 'esttica'  metfora 'lingstica' - ensinando que aquela mergulha razes na inteno deliberada de criar efeito emotivo, 
enquanto na ltima, tornada hbito da lngua, j no se sente nenhum vestgio de inovao criadora pessoal; Amado Alonso, comungando a mesma opinio, denomina 'fssil' 
a esta metfora morta, conhecida (conforme a nomenclatura da retrica greco-latina) como - catacrese. 
Metfora necessria, estereotipada, resulta a catacrese da ausncia 
de termo prprio para designar determinada coisa (pernas da mesa, 
502 
cabea de alfinete, etc.), o que conduz, s vezes, ao estabelecimento de relaes de semelhana algo abusivas e foradas, como se v, por exemplo, em - embarcar 
num trem, o avio aterrissou em alto-mar, enterrar uma farpa no dedo, espalhar dinheiro, azulejos verdes. 
Ao contrrio, a metfora viva, sempre renovada, nasce de um impulso estilstico - e, por isso,  explorada pelos escritores como processo bsico de criao literria, 
especialmente na poesia. "Somente a metfora" - diz Marcel Proust - "pode dar uma espcie de eternidade ao estilo." 
Exemplos: 
"Incndio - leo ruivo, ensangentado." (CASTRO ALvEs) 
"Noite - dossel do amor aberto no infinito..." (Lus CARLOS) 
"(...) s troves longe, cu com pigarro." (GUIMARES ROSA) 
Repare-se nestes dois excertos, onde se consorciam a significao 
reta e a figurada das palavras 'tempestade' e 'mundo', respectivamente: 
"No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal (...). Enfim a tempestade amainou. Confesso que foi uma diverso excelente  tempestade do meu corao." (MACHADO 
DE AsSIS) 
"Gramtica, geografia, que me importava saber verbos e substantivos, se o mundo era redondo ou quadrado, que me importava, se o meu mundo era os meus coelhos!" (MARQUES 
REBELO) 
2) A metfora reveste diversas modalidades, entre as quais merecem destaque a personificao, a hiprbole, o smbolo e a sinestesia. 
a) Entende-se por personificao, ou animismo, ou, ainda, prosopopia - a atribuio a seres inanimados de aes, qualidades, ou sentimentos prprios do hQmem: 
o mar brame, ondas violentas, tarde triste, etc. 
Exemplos: 
"(...) o sol, no poente, abre tapearias..." (CRUZ E SousA) 
os rios vo carregando as queixas do caminho." (RAUL 
Bopp) 
"Um frio inteligente (...) percorria o jardim..." (CLARICE 
LISPEcTOR) 
503 
A mais genialmente arrojada prosopopia da lngua portuguesa , sem dvida, a personificao do Cabo das Tormentas na figura do gigante Adamastor. (CAMES, Os Lusadas, 
V, 39-59). 
b) Hiprbole -  a figura do exagero: tem por fundamento a paixo, que leva o escritor a deformar a realidade, glorificando-a ou amesquinhando-a segundo o seu particular 
modo de sentir. 
Na linguagem corrente so comuns as hiprboles, exageraes autorizadas pelo uso: 
morro de saudades, estourou de rir, ser louca pelos filhos, etc. 
Exemplos: 
"Rios te correro dos olhos, se chorares!" (OLAvo BILAC) 
"Eu, somente eu, com a minha dor enorme, 
Os olhos ensangento na viglia!" (AUGUSTO DOS ANJOS) 
c) Smbolo -  a metfora que ocorre quando o nome de um ser ou coisa concreta assume valor convencional, abstrato. 
Desta sorte, a balana  o smbolo da justia; a cruz, do cristianismo; 
o co, da fidelidade; Dom Qui.xote, do idealismo; Otelo, do cime. 
Procurando caracterizar o smbolo, Wellek e Warren sustentam que o seu trao cardeal  a reiterao e a persistncia - vale dizer que se a metfora "se repite persistentemente, 
como presentacin a la vez que como representacin, se convierte en smbolo".* 
Exemplos: 
"Nem cora o livro de ombrear co sabre... 
Nem cora o sabre de cham-lo irmo..." (CASTRO ALvEs) 
(livro simboliza a cultura; e sabre, o poder militar). 
" Natrcias,  Lauras,  Beatrizes, 
Como noite que de astros se constela, 
Vai-vos seguindo a dor dos infelizes..." 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
(Natrcias, Louras, Beatrizes simho1izam as mulheres que despertam grandes paixes). 
* Ren Wellek e Austin Warren, Teora literria, trad. esp., 2 cd. aum. e corr., Madri, Gredos, [1955], p. 225. 
504 
"O Evangelho e o Coro esto frente a frente no resultado das suas doutrinas." (HERCULANO) 
(Evangelho simboliza a religio crist; e Coro, a dos maometanos). 
O simbolismo das cores tem carter universal: so associaes que esto no consenso de todos, e tm figurado em todas as literaturas. Com pequenas variedades insuficientes 
para desfigurar o sentimento geral, sua chave  mais ou menos esta: 
Exemplos: 
"Os sonhos brancos que no so da terra." (CRUZ E SousA) 
" rio roxo e triste,  rio morto, 
rio do esquecimento!" (CRUZ E SousA) 
" a esperana que pouco a pouco morre, 
deixando em crepes o universo inteiro." 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
d) Sinestesia -  a interpenetrao de planos sensoriais. Por esta figura, fundem-se sensaes visuais com auditivas, gustativas, olfativas, tcteis - num amlgama 
de ricos efeitos expressivos. 
Exemplos: 
"A cor cantava-me nos olhos..." (CRUZ E SousA) 
(a se misturam a sensao visual de cor e a sensao auditiva de 
cantar) 
"Por uma nica janela envidraada, (...) entravam claridades cinzentas e surdas, sem sombras." (CLARICE LISPECTOR) 
"Gela o som... gela a cor..." (RONALD DE CARVALHO) 
"Som que tem cor, fulgor, sabor, perfume." (HERMES FONTES) "Voltou-se para o canto, o rosto prximo da parede - a camada de ar ali como que se guardava mais fresca, 
e com um relento de limo, cheiro verde, quase musgoso (...)." (GUIMARES ROSA) 
505 
J 
branco 
azul 
vermelho verde amarelo roxo 
negro 
- pureza, virgindade 
- sonho, felicidade, misticismo 
- luta, tragdia 
- esperana, dio 
- tdio, angstia 
- luto, mgoa 
- dor, luto 
1 
Recorde-se o conhecido verso de Baudelaire: 
"Les parfums, les couleurs et les sons se rpondent." 
METONMIA 
1) Baseado numa relao de contigidade, origina-se este tropo das idias evocadas por outra com a qual apresentam certa interdependncia.* 
Se leio OsLustadas, lembro-me de Cames, seu autor; se me refiro 
a navio, vm-me  lembrana as suas velas - partes que so daquele 
todo. 
Consiste, ento, a metonmia em tomar-se, por exemplo: 
a) O efeito pela causa: As cas inspiram respeito (em vez de - a velhice). 
b) O autor pela obra: Ler Machado de Assis. Havia no salo um Rafael. 
c) O continente pelo contedo: Tomar uma taa de ch, uma garrafa de vinho. 
d) A parte pelo todo: Completou quinze primaveras (por quinze anos). 
e) O singular pelo plural: A mulher tem sempre rara intuio (por 
- as mulheres). 
j9 A matria pela obra: Tangem os bronzes (por - os sinos), etc. 
Exemplos: 
"Aquele que criou todo o Hemisfrio," (CAMEs) (hemisfrio = mundo: a parte pelo todo). 
"(Um homem) trazia um ferro na mo gotejando vermelho, uma faca de lmina estreita ou um punhal." (RAUL POMPIA) 
(vermelho = sangue: --- a caracterstica pelo produto). 
* Com esta conceituao, que  a dos modernos estillogos, Wolfgang Kayser  frente -, a metonfmia abrange a 'sindoque', outrora considerada ao lado da primeira, 
 base de distines sutis. 
506 
"Ele s naquela casa sabia que Deus derramara seu sangue para que o mundo o amasse." (JOS LINs DO REGO) 
(o mundo = os homens: - o todo pela parte). 
"A vingana vai-lhes no encalo." (ALEXANDRE HERCULANO) (vingana = vingadores: - o abstrato pelo concreto). 
2) Variedade da metonmia  a antonomsia - designao de uma pessoa ou lugar por qualquer atributo notrio, ou acontecimento a que estejam ligados. 
Entre os grandes episdios que marcaram a vida de Rui Barbosa destaca-se o ter representado o Brasil, com superior brilho, na conferncia de Haia; da a antonomsia: 
guia de Haia. Tambm assim: 
o Poeta dos Escravos (CASTRO ALVES); o Patriarca da Independncia (JOS BONIFCI0); o Cavaleiro da Triste Figura (dom Quixote). 
"Na linguagem coloquial, a antonomsia  o apelido, alcunha ou 
cognome, cuja origem  um aposto ao nome prprio. Quando o aposto 
e o nome se identificam de tal forma, que um evoca automaticamente 
o outro, omite-se o segundo, e o aposto passa a apelido: Pedro, o Perneta reduz-se a 'o Perneta', antonomsia. 
Tambm povos, pases, cidades reais ou fictcias, at profisses e animais costumam ser designados por antonomsia, a que, ento, se d o nome generalizador de 'perfrase', 
que pode ser metafrica ou no. E assim que se diz Cidade Maravilhosa em vez de Rio de Janeiro. O processo  o mesmo: 'Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa' reduziu-se 
ao aposto: Cidade Maravilhosa. Ningum teria coragem de dizer que essa perfrase  o apelido de Rio:  a sua antonomsia. " 
Exemplo: 
"Conheciam-no pelo toque-toque da perna de pau e logo, chamando-se uns aos outros, corriam todos os meninos s grades e, quando o invlido passava, rompiam em assuada: 
-  perneta!" 
(COELHO NETO) 
Observao: 
Fundamentada no mesmo princfpio da semelhana que rege a metfora -, a comparao ou smile  o confronto de dois seres ou fatos em que o esprito percebe ai- guina 
relao. 
Sua inferioridade expressiva em face da metfora reside em ser explcita, posta em p com o socorro indispensvel das partculas como, qual, tal, assim como, etc. 
* Othon M. Garcia, ob. cit., p. 81. 
507 
O realizar-se por meio de um giro fraseolgico retira-lhe, talvez, o carter deflgura de palavra; mas considera-se neste ponto e lugar, em virtude de ser governada, 
como j se acentuou, pelo mesmo prmcfpio geral da similitude. 
Exemplos: 
1 
'Assim como a madeira cria o bicho, mas o bicho destri a madeira, assim do pecado nascem as lgrimas, mas as lgrimas destroem o pecado." (MANUEL 
BERNARDES) 
"Como uma cascavel que se enroscava, 
A cidade dos lzaros dormia..." (AuGusTo DOS ANJOS) 
"Tinhas o corao ermo e fechado, 
Como a floresta secular, sombria..." (OLAvo BILAc) 
Qual a paLmeira que domina ufana 
Os altos topos da floresta espessa: 
Tal bem presto h de ser no mundo novo 
O Brasil bem fadado." (JOS B0NIFcI0) 
Middleton Murry props que, sob a designao genrica de imagem, se compreendam a metfora, a metonmia e o smile. 
508 
1 
1 
:er de fiernada, 
a, assim 
1ANUEL 
e ima - 
